Continuidade no que deu certo

Em entrevista, Rabello esclarece posição do Rio em deixar assistentes que ficam atrás dos gols, do lado invertido aos bandeirinhas.

Sexta-Feira, 27/01/2012
Atualizado às 22:45


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  Alexandre Madruga
  madruga@vozdoapito.com.br
 



Há cinco temporadas a frente da comissão de arbitragem do Rio de Janeiro (COAF/RJ), Jorge Fernando Rabello inovou, modernizou e recolocou a arbitragem carioca de volta a vitrine nacional. Dentre as tantas inovações como: concentrações, observadores e técnicos de arbitragem, o chefe da COAF implementou os “árbitros auxiliares assistentes (AAA)”, que ficam atrás dos gols, para ajudar o árbitro central nas decisões com mais eficiência. Acontece que em 2012 várias federações resolveram copiar a idéia carioca, colocando os AAA para trabalhar nos jogos. A única diferença é que no Rio, os AAA continuam do lado invertido aos árbitros auxiliares. Essa atitude vai contra o que a FIFA resolveu usar agora onde os AAA, ficam posicionados do mesmo lado dos bandeirinhas.


Com a palavra, Jorge Fernando Rabello:

VOZ DO APITO: Rabello, porque o Rio não está seguindo a orientação da FIFA sobre o posicionamento dos AAA?
RABELLO: - As pessoas no Brasil precisam entender que a FIFA/IFAB, não é o Olimpo. Essas entidades são constituídas por pessoas que erram e acertam como nós, seres humanos normais. Portanto, podem e devem ser questionadas e desafiadas sim, dentro da legalidade das regras do jogo. Existe um trecho de uma canção bíblica que diz: "é muito mais fácil falar sobre alguma coisa do que realizá-la". Pois é isso que acontece nas orientações da IFAB sobre a colocação do AAA. Ou seja, como o experimento nunca foi testado nas competições da FIFA, estabelecem normas e procedimentos cuja experiência é zero.

VOZ DO APITO: Você acredita que o posicionamento usado no Rio é o melhor?
RABELLO: - Pior do que determinar a troca de lado dos AAA, é não fundamentar. Quero que faça e pronto. Comigo não funciona. Ou me convence tecnicamente ou não faço. Podem não gostar, podem me criticar, podem mandar email para os comentaristas de arbitragem. Mas aviso: trata-se de um experimento. E mais, um experimento que começou no Rio de Janeiro em abril de 2008. Portanto, os AAA nas competições do Rio de Janeiro continuarão na posição original.

VOZ DO APITO: Mas houve um representante da IFAB que veio ao Brasil e gostou da posição invertida.
RABELLO: - O Sr. David Macvicar, representante da IFAB, esteve no Brasil em 2011 acompanhando os trabalhos desenvolvidos sobre o AAA em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sobre o Rio especificamente, posso afirmar que o Sr. Macvicar ficou bastante impressionado com trabalho técnico desenvolvido com os AAA, chegando a afirmar que dos trabalhos que tinha tido a oportunidade de observar até aquele momento, o do Rio era o melhor formatado.

VOZ DO APITO: Mas ele falou sobre as funções dos AAA?
RABELLO: - Algumas considerações foram feitas e debatidas, como por exemplo, a questão das sinalizações feitas pelos AAA. O Sr. Macvicar ponderou sobre o perigo de haver exposição indevida por ocasião de uma tomada de decisão contraditória entre o AAA e o árbitro central. Nossa argumentação foi de que, criamos os gestuais do AAA apenas para lances objetivos. Ou seja, tiro de canto, tiro de meta com saídas de bola de forma clara. Quando for lance apertado, o AAA deve apenas falar e não sinalizar. Ou seja, nada diferente do que é passado para o árbitro assistente. Quando for saída de bola de forma clara, informar de forma direta. Quando for apertado, manter contato visual com o árbitro central e depois informar a quem pertence o arremesso lateral etc.

VOZ DO APITO: Portanto, nas questões subjetivas o AAA sempre ira falar e não sinalizar?
RABELLO: - Temos um acervo com mais de 30 lances ocorridos no campeonato estadual do Rio de 2011, com tomadas de decisões conjuntas entre o AAA e o árbitro central. Tomadas de decisão que definiram resultados e salvaram o jogo, pois se ali não estivesse colocado o AAA, os lances não seriam percebidos pela equipe de arbitragem por situações diversas.



VOZ DO APITO: Qual argumento para a troca de lado dos AAA?
RABELLO: - O que me foi passado pelo próprio Sr. Macvicar era que a UEFA tinha alterado a centenária diagonal do árbitro central. Ou seja, ao colocar o árbitro central do lado esquerdo (olhando para o gol do centro de campo), a UEFA mudou o posicionamento do árbitro central para o lado direito e a IFAB achou essa situação muito perigosa para o futebol.

VOZ DO APITO: E sua posição?
RABELLO: - Ora, sendo esse o problema, e eu disse isso pessoalmente ao Sr. Macvicar, bastava apenas permanecer com árbitro central em sua diagonal centenária e, quando a situação do jogo exigisse, o árbitro central se deslocaria até o lado direito na altura da meia lua da grande área. Portanto, ampla cobertura em ambos os lados. A arbitragem moderna exige que tenhamos a percepção para entender que a diagonal centenária dos árbitros tem que ser encarada. Não mais como um trilho (com deslocamento único e permanente) e sim, com uma trilha (com possibilidades de buscar novos caminhos com assim a situação exigir).

VOZ DO APITO: Mas e o que pensam os árbitros assistentes a respeito disso?
RABELLO: - O que acontece com o deslocamento do AAA para o lado direito, junto ao árbitro assistente, não vou nem entrar no mérito da questão sobre o que pensam os árbitros assistentes a respeito. Algumas mensagens pelo Brasil já chegaram para mim. Mas esse deslocamento do AAA criou uma "zona cega" no campo de jogo. Uma parte do campo na diagonal do árbitro, que dependendo da situação, o árbitro central ficará impossibilitado da tomada de decisão com segurança, e pior, não terá ninguém para auxiliá-lo, já que o AAA estará do outro lado da meta.

VOZ DO APITO: Exemplifique algumas situações a respeito.
RABELLO: - Como ficaria o famoso caso do Thierry Henry, no gol de mão da França? O AAA do outro lado veria? Acontece um contato físico, que ele a distancia em que se encontra, considera faltoso. Então, sanciona a infração que foi muito rente na linha lateral da grande área na sua diagonal, mesmo não tendo certeza se foi dentro ou fora da área. Quem vai ajudar? O AAA do outro lado veria? E naquela jogada em que, por questões situacionais, o árbitro central, apesar de estar em sua diagonal fica encoberto e acontece um contato físico entre goleiro e atacante. Naquela jogada característica, de saber se houve ou não simulação, e se houve um toque intencional do goleiro, quem vai ajudar? O AAA do outro lado ajudaria?

VOZ DO APITO: Qual será então a posição da COAF/RJ?
RABELLO: - Essas e outras situações de jogo, comprovadas em vídeos, farão parte da fundamentação que estaremos enviando ao final da competição para a FIFA/IFAB, fazendo uma exposição de motivos, com texto de fundamentação das regras do jogo, bem como, um parecer muito interessante de um conceituado oftalmologista a respeito de visão periférica em espanhol e inglês.

VOZ DO APITO: Deixe sua mensagem sobre o caso.
RABELLO: - Aproveito a oportunidade para sugerir que a FIFA, realize experimentos com os AAA nas suas competições sub 15, sub17 e sub 20, bem como, a aqueles que enviam e-mails para comentaristas de arbitragem tentando desqualificar o trabalho do Rio de Janeiro, que passem a utilizar equipamentos de comunicação e utilizem os AAA em suas competições, pois, além do ganho técnico, significa aumento de mercado de trabalho. Sinceramente eu acho que seria muito mais produtivo para a arbitragem brasileira.

O Voz do Apito agradece publicamente ao Presidente Jorge Rabello, pela gentileza em nos atender e abre espaço para todos os dirigentes do país, que queiram divulgar seus trabalhos através de nossas páginas.


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